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CAPÍTULO XII



CAPÍTULO XII

 

 

Os barcos, em ordem, se encontravam no mesmo lugar em que haviam sido deixados. Era meio-dia, e Karen desejou partir de imediato, mas o consenso geral foi de que esperassem até o dia seguinte.

Considerando-se o fato de que estariam navegando contra a corrente desta vez, para Karen a decisão foi desanimadora. Levariam mais tempo para voltar, e pensar que ainda tinha três dias de viagem pela frente lhe causava um ligeiro mal-estar. Havia ainda a possibilidade de fazerem uma parada em Tikal.

Roger sugeriu o uso de filmes já gravados para se mostrar a cidade restaurada dos Maias. Se isso acontecesse não teria outra oportunidade de visitar o lugar e ficaria menos tempo na companhia de Jake, pensava Karen.

Quase não haviam se falado nesses dois últimos dias. Jake não a ignorava, mas sua atitude era puramente profissional. Várias vezes Karen se arrependeu de sua decisão. A futura paz de espírito que teria valia todo aquele tormento do presente? Tarde demais, agora. Jake não abriria a guarda e ela não tomaria a iniciativa, com medo de ser mal interpretada. Para todos os efeitos não havia mais nada entre os dois.

Havia momentos em que parecia morrer. Todo seu ser chamava e ansiava por Jake de forma quase insuportável. O amor não levava em conta as circunstâncias, não desaparecia com um simples comando da razão. Não seria fácil superar o que sentia em relação a ele. Uma coisa era certa: provavelmente nenhum outro homem o suplantaria.

Após quase duas semanas na selva, ninguém se sentia nem aparentava a melhor forma. Até mesmo Luz mostrava sinais de cansaço. O lago era uma tentação. Luz usou de toda sua energia para conter a vontade geral de um banho. As piranhas podiam não estar à vista, mas era certo que lá se encontravam.

Mesmo assim, o guia precisou fazer uma demonstração prática do que afirmara, convencendo a todos em definitivo. A carcaça de peru que atirou às águas, amarrada por uma corda, flutuou somente por alguns segundos antes de ser atacada por uma massa borbulhante dessas pequenas criaturas. Quando Luz puxou a corda constataram que nada restara dos restos de carne presos aos ossos.

Karen estremeceu ao se lembrar da noite em que por uma fração de segundo não entrara naquelas águas mansas e traiçoeiras. Se não fosse a intervenção de Jake, teria terminado da mesma maneira. Podia sentir-lhe o olhar nesse momento, sabendo que por sua mente também passava o mesmo pensamento. O que veio dcpois fora inevitável. Teria acontecido em qualquer outra hora. Estivera ali entre os dois desde o início. Mesmo o antagonismo fazia parte dessa atração quase irresistível.

— Não sei de vocês, mas gostaria de ter um peixe para o jantar — Jake anunciou. — Que tal soltarmos um dos barcos e irmos pescar alguns?

— Dessas coisas? — Nigel perguntou assustado. — Não, obrigado!

— As piranhas têm seu sabor. São um bom prato — Jake assegurou, sorrindo. — Mas eu tinha pensado em outras espécies.

Nigel pareceu mais aliviado.

— Oh, então tudo bem. Vou com você.

Luz os acompanhou na pescaria. Karen, lamentando não ter se oferecido para ir junto, seguia os movimentos cuidadosos dos homens que soltavam o barco e o conduziam ao rio num silêncio quase respeitoso para não afugentar os peixes. Os outros estavam discutindo pormenores técnicos, aos quais ela própria deveria ouvir, mas não conseguia disfarçar a antipatia que desenvolvera por Mike.

Ainda estava sentada no mesmo tronco de onde observara o barco sair, quando Nigel apareceu nas águas. Karen não sabia dizer exatamente como aconteceu. Um minuto antes Nigel puxava a linha onde se via o que parecia ser um bom peixe, no outro, estava lutando dentro d'água.

O grito lancinante de Nigel pôs Jake em pé. A lateral do barco adernou perigosamente quando Jake se inclinou tentando alcançar o companheiro. Luz se manteve do outro lado, conseguindo equilibrar a embarcação, com uma força nascida do desespero. De onde estava, com a mão à boca num gesto de repulsa ao que se passava, Karen via vários objetos prateados serem projetados do corpo de Nigel. Alertados pelos gritos, os outros homens se dirigiram para a margem do rio. Howard filmava a cena com uma objetividade profissional. Jake conseguiu, após o que pareceu uma eternidade, alcançar um dos braços de Nigel e, com a interferência rápida de Luz, puxar seu corpo antes que o barco virasse.

— Alguém pegue a caixa de primeiros socorros — Karen ordenou aos gritos assim que viu Jake e Luz resgatarem Nigel. — Vamos precisar de muito antisséptico.

Todos os três homens haviam sido mordidos, apesar de que as feridas de Luz se restringiam ao dorso das mãos. A camisa de Jake estava quase em tiras, com sangue brotando de pelo menos uma dúzia de lugares. Nigel fora o mais atingido. Pernas, braços e tronco eram uma massa de feridas abertas, aparentemente nenhuma de grande profundidade, mas o suficiente para provocar uma assustadora perda de sangue.

Karen se lembrou de que o corpo humano suportava uma perda de sangue de mais ou menos um litro, antes de tornar isso um problema. Preparou-se com coragem para o trabalho a sua frente. Reações de choque teriam de esperar. Apesar do calor intenso, Nigel tremia incontrolavelmente, seu rosto de uma palidez cadavérica.

— Minha culpa — falava sem parar. — Eu desequilibrei a embarcação.

— Você ficará bom — Luz assegurava. — Nenhum dano muito grave. Você deve ter se cortado quando caiu para as piranhas terem sido atraídas tão rapidamente. — Luz tocou o braço de Karen. — A planta que usei em você para a dor servirá para Nigel também. Vou procurar mais.

Mais eficiente do que aspirina, com certeza, Karen pensou. Todos haviam sido vacinados contra tétano, ao menos quanto a esse aspecto podiam estar tranqüilos. Tendo feito tudo o que podia por Nigel no momento, Karen dirigiu sua atenção para Jake. Ele havia se livrado da camisa rota, e o sangramento quase já havia parado, mas as feridas precisavam de cuidados. Karen respirou fundo antes de tocar a pele bronzeada. O antisséptico devia arder com fúria, mas Jake não reclamou enquanto ela pressionava um chumaço algodão embebido no remédio sobre cada ferida.

Seguindo sua instruções, Roger e Mike colocaram Nigel sobre o seu saco de dormir com as pernas mais elevadas do que a cabeça. Luz retornou com uma quantidade enorme das milagrosas folhas e imediatamente começou a extrair o precioso líquido que cobriria a carne dilacerada.

— Você deveria passar um pouco também — Karen falou para Jake. — Vai doer mais do que agora.

— Já vi dores piores. Tivemos muita sorte.

— Não foi só uma questão de sorte. Nigel não teria a menor chance se você não tivesse praticamente ido atrás dele.

Jake ainda estava sentado de costas para Karen, os cabelos brilhando à luz do sol.

— Foi o ato mais corajoso que já vi na vida!

Jake se virou para fitá-la. Um leve sorriso nos lábios.

— Não faça de mim um herói. Agi sob puro impulso. Se tivesse tempo de pensar, provavelmente teria gritado e nada mais.

— Não, não teria. Você salvou a vida de Nigel.

— Não teria acontecido se ele não tivesse se cortado na queda. Nigel provavelmente conseguiria sair do rio por si mesmo — Jake falou, seguro. — Aquela demonstração que Luz deu não explicou tudo. As piranhas são atraídas pelo cheiro de carne cozida ou sangue, mas se você não tiver nenhuma ferida aberta estará relativamente seguro. Mesmo assim, elas levam mais do que cinco segundos para comer alguma coisa maior do que um macaco.

— Não foi o que você me disse quando... — Karen começou, interrompendo ao perceber o que iria falar.

— Então eu exagerei um pouco. — Jake continuava sério. — De qualquer forma era um risco. Ou você preferia as piranhas ao que aconteceu?

Karen deveria saber que Jake não deixaria de fazer algum comentário.

— Não quero falar sobre isso. Está acabado, Jake!

— Não precisa ser assim.

— Mas é assim para mim.

— Você quer dizer que perdeu todo o interesse?

— E isso é tão difícil de aceitar?

— Considerando o jeito que nós éramos, sim, é difícil.

— Então só lhe resta aceitar minha palavra como definitiva. Karen estava no seu limite. A tentação de deixar tudo nas mãos do futuro era por demais assombrosa. Só que Jake com seu dinamismo não ficaria na cidade mais do que algumas semanas, e depois partiria para um novo projeto, Karen procurou se lembrar. Andava em círculos sem chegar a lugar nenhum, reconhecia, desanimada. Melhor ficar como estava.

— Vou ver como Nigel está — falou apressada.

A cor de Nigel parecia voltar ao normal, notou, aliviada. Estados de choque poderiam ser fatais num lugar como aquele. Nigel a recebeu com um sorriso apagado.

— Parece que é o destino — murmurou. — Primeiro o estômago e agora isso! Acho que devo ficar no estúdio.

Nigel tentou um sorriso mais aberto ao vê-la, tomar-lhe o pulso.

— Melhor chamar um dos homens se quiser uma leitura correta dos meus batimentos.

O fato de Nigel estar ferido impediu Karen de dar-lhe uma resposta afiada ao comentário tolo. Já havia tido muitas respostas masculinas a sua presença. Bem, Jake a havia prevenido das possíveis conseqüências de ser a única mulher entre tantos homens. Nunca mais estaria na mesma posição, qualquer que fosse o trabalho que viesse a ter dali para frente. O dia correu sem maiores atropelos. Nigel se sentia bem o suficiente para fazer uma refeição leve ao jantar. Todos se recolheram bem cedo. Com um pouco de sorte estariam em Fuentas Santos ao anoitecer do segundo dia, Luz declarou, esperançoso. Karen assim o esperava.

Como nas noites anteriores, acordou antes de todos e não mais conciliou o sono. Os companheiros pareciam ainda dormir quando finalmente decidiu se levantar. Podia ao menos se refrescar à beira do lago.

Iluminada pelo luar a água continuava convidativa. Dessa vez, entretanto, a tentação de um rápido mergulho não apareceu. Despindo a parte superior do pijama, Karen se ajoelhou para pegar um pouco de água com as mãos e refrescar os ombros e as costas. Estaria úmida de suor em minutos, mas no momento isso parecia maravilhoso.

Ouvidos e olhos atentos para o menor sinal de movimento ou ruído suspeito, Karen viu uma tartaruga mergulhar mansa nas águas. Jake surgiu logo em seguida por entre as árvores.

— Pensei que tivesse aprendido. Não vale correr tanto risco.

— Não tinha essa intenção — Karen negou. — Pode descansar sossegado. Só estou me refrescando. Volto num minuto para o acampamento.

— Vou esperar por você.

— Não!

Karen se curvou sobre os joelhos, assim que Jake fez um movimento em sua direção, protegendo os seios nus com as mãos.

— Não quero que você fique, Jake!

— O lugar é livre. Vou aonde quero e faço o que quero!

— Não comigo!

— Não, com você só faço o que nós dois queremos!

O corpo de Karen se enrijeceu quando aquele homem a pôs de pé. As mãos que forçaram seus braços para os lados eram como aço. A boca de Jake era selvagem, na tentativa de separar-lhe os lábios. Havia naquele homem uma urgência que a assustava e ao mesmo tempo a atraía. Karen correspondeu ao beijo com ardor, numa mistura de amor, ódio e desejo, tudo ao mesmo tempo.

Não trocaram nenhuma palavra nos momentos seguintes. Era como ser pega por uma tempestade. Karen se abandonou cegamente, sem pensar. Só sentia. A raiva e fúria de ambos se materializou num tipo diferente de paixão. Karen se postou sobre o quadril de Jake, maravilhada com a glória de poder possuí-lo até o que pareceu ser um cataclismo final. Ainda em silêncio, lado a lado agora, Karen concluía que a dor era maior do que imaginara. Jake fez o primeiro movimento e se levantou bruscamente.

— Agora podemos dizer que está terminado. Contas acertadas!

Mas não para ela, Karen pensou, triste. Ainda haveria um longo período de dor a sua frente! Após duas semanas e alguns dias de mata, lagos e rios, a Cidade da Guatemala parecia pertencer a outro planeta. Avistando os subúrbios da cidade, Karen desejou poder voar direto para casa. Roger havia avisado que as chances de conseguirem um vôo em pouco tempo eram remotas.

Todos precisavam de descanso e de um período para se recuperar, especialmente Nigel. Apesar dos cuidados recebidos, duas ou três feridas estavam inflamadas. Nigel precisava de atenção hospitalar. Karen o acompanharia ao melhor centro médico do local, assim que aterrizassem, e os outros iriam para casa em busca de um bom banho e roupas realmente limpas.

Os últimos dois ou três dias tinham sido os piores. Jake a havia deixado isolada. Sentado no assento junto ao corredor, a cabeça recostada no banco e os olhos fechados, Jake parecia intocado e intocável. Não que Karen tivesse alguma intenção de se aproximar. Aquele homem já tirara tudo o que quisera de sua pessoa.

— Acho que Jake e Luz são os únicos que saíram sem marcas desta expedição — Nigel comentou como se pudesse ler seus pensamentos.

— Também foram mordidos pelas piranhas — Karen comentou.

— Eu digo emocionalmente. Sinto-me como se tivesse sido posto numa prensa. Dei um bocado de trabalho, não foi?

— Não que eu me lembre.

— Você só está sendo simpática — Nigel disse, pensativo. — Às vezes acho que fui atacado por uma febre das selvas, dessas que deixam tudo deformado.

Se uma febre os atacara, Karen ainda estava sofrendo desse mal, disse para si mesma. E o pior é que continuaria a sofrer ainda por muito tempo. Conviver com Jake pelos próximos dois ou três dias não iria ajudá-la a se curar. Pensativa, ela apertou o cinto de segurança, preparando-se para a aterrissagem.

A decisão de Jake de acompanhá-los ao hospital foi recebida por Karen com uma mistura estranha de sentimentos. Apesar de nem ela nem Nigel falarem espanhol, com certeza encontrariam alguém que falasse inglês na equipe hospitalar.

— Talvez — Jake concordou quando Karen expôs sua opinião. — Mas talvez não. Não vale a pena correr esse risco.

A presença de Jake certamente facilitou o atendimento a Nigel, que foi conduzido ao centro hospitalar da cidade em questão de minutos, passando à frente de outros que esperavam já há algum tempo. Karen rezava para que o atendimento ao companheiro não se estendesse por muito tempo. Detestava estar ali sozinha ao lado de Jake.

— Você acha que Nigel precisará de uma internação? — perguntou procurando algum assunto que quebrasse o silêncio pesado entre os dois.

— Nigel precisaria estar às portas da morte para isso — foi a resposta seca. — Preocupada?

— Não mais do que estaria por qualquer um dos outros da equipe.

— Até eu?

— Se você tivesse desenvolvido uma infecção, sim. Só que isso não aconteceu, não é?

— Parece que sou imune a muitas coisas. — A ironia era visível. — Quais os próximos planos?

— Os mesmos de todos. Uns dois dias de descanso e então de volta para casa.

— Quis dizer a longo prazo.

— Ainda não me decidi. Talvez opte por uma mudança de ramo.

— Fazendo o quê?

— Também não me decidi. E você?

— Tenho um circuito de palestras de dois meses nos Estados Unidos para depois do Natal. Depois disso fui convidado pela Fundação Lorrison para acompanhar um trabalho de escavação em Yucatán por quase um ano.

Uma programação que deixaria muito pouco tempo para relacionamentos pessoais, Karen concluiu. Fizera a coisa certa ao terminar aquele envolvimento. A dor seria muito maior no futuro. Os planos de Jake também punham um ponto final no assunto Elena. Karen não conseguia ver, sob nenhuma circunstância, a bela guatemalteca encarcerada na mata da península de Yucatán por uma semana, quanto mais por um ano.

Nigel retornava com um ar tristonho. Parecia que o tratamento havia sido doloroso. Ficaria com algumas cicatrizes, mas Karen achava que essas seriam motivo de conversa e de orgulho. Poucas pessoas podiam dizer que haviam sido atacadas por piranhas e sobrevivido.

Ao chegarem em casa os três encontraram o resto do grupo descansando na frondosa varanda. Karen se dirigiu apressada ao quarto, indo tomar a tão esperada ducha.O jato de água morna sobre seu corpo trouxe um quê de rejuvenescimento, a sensação do cabelo bem lavado trouxe-lhe um prazer ainda maior. Seria preciso ainda algumas lavagens com produtos adequados para que aqueles fios louros voltassem a ter o mesmo brilho e maciez que o sol e a água do rio haviam prejudicado. Karen podia ver no espelho as pontas quebradas, enquanto passava indolente o pente pelos cabelos.

Seu reflexo mostrava uma jovem diferente daquela de duas semanas atrás. Um ar mais maduro podia ser notado em seu rosto. A toalha branca na qual se envolvera mostrava uns últimos vestígios do bronzeado que adquirira no verão passado. Havia tido poucas oportunidades de tomar sol desde então, portanto aproveitaria os dias seguintes antes de embarcar de vez para Londres. O frio de novembro já se faria sentir quando lá chegassem.

Uma batida à porta a fez sobressaltar. Foi abri-la com a sensação de estar repetindo uma cena. Jake se encontrava do outro lado. Usava um robe atoalhado com pouca ou nenhuma roupa por baixo.

— Preciso de umas coisas — falou. — Virei pegar o resto mais tarde, quando você não estiver no quarto.

Karen se afastou para lhe dar passagem. A toalha em seu corpo fez menção de escorregar, porém ela conseguiu segurá-la a tempo. Permaneceu exatamente no mesmo lugar, mantendo a porta aberta, enquanto Jake selecionava o que queria. Tentava manter o rosto desprovido de qualquer expressão significativa.

— Do que tem medo? — Jake perguntou.

— De nada. Só estou esperando para poder me vestir.

— Ainda temos mais de uma hora até o jantar.

— Sim? E o que tem isso? — Sua voz revelava agora um ligeiro tremor. — Tempo suficiente para um drinque antes de comermos..

— Tempo suficiente para várias coisas diferentes — Jake completou.

O coração de Karen disparou. Queria aquele homem, mas queria outras coisas também.

— Pensei que havíamos chegado a um consenso — falou, nervosa.

— Também pensei. Só que não é assim tão fácil. Não consigo achar o botão de desligar, assim como você faz.

Se Jake ao menos desconfiasse! Olhando para ele, Karen foi tomada por uma onda avassaladora de emoção. Estava sendo uma boba, sabia disso, mas não fazia diferença. Jake leu a resposta em seus olhos. Jogando a roupa que pegara sobre uma cadeira, caminhou até Karen e fechou a porta lentamente, passando a chave pela fechadura. Karen tremia quando ele a puxou contra o peito. Iria se entregar a esse homem mais uma vez, e isso parecia não ter a menor importância. Amava Jake quase com loucura. Só contava com esse fato.

A toalha caiu ao chão devagar. As mãos de Jake deslizavam por seu corpo, moldando-a de encontro ao dele, enquanto seus lábios vorazes lhe cobriam a boca, os olhos, as orelhas pequenas e bem feitas, numa sucessão de beijos e ligeiras mordidas. Karen murmurava seu nome. Não havia nenhuma parte de seu corpo que não ansiasse pelo toque daquelas mãos.

Hábil, Jake se livrou do robe, e Karen deu um gemido involuntário no momento em que aquele corpo viril buscou o dela em movimentos sinuosos e alucinantes. Enterrando a cabeça no peito forte, ela sentia todo o sabor da pele recém-banhada. Havia tanto a dizer!

Jake a tomou no colo, colocando-a sobre a cama macia. Deitado a seu lado, tomava-lhe o rosto entre as mãos, beijando-a longamente. Karen correspondia em toda a plenitude de seu amor. Podia dar-se por inteiro, mas não teria Jake da mesma maneira. Buscava o corpo daquele homem com desespero. Suas mãos ávidas percorriam peito, ombros e costas, sentindo a tensão dos músculos e a total virilidade masculina. Junto com seu corpo, Karen abriu uma vez mais seu coração para Jake, adorando a dominante posse.

— Não vou deixar você assim sem mais nem menos! — ele falou algum tempo depois.

Os lábios de Jake tocavam-lhe os seios de leve, o peso daquele corpo ainda sobre o seu.

— Quero você comigo, Karen.

— Até você sair para a próxima expedição? — disse com a voz rouca. — Não vejo o por quê.

— Venha comigo para os Estados Unidos.

— Para Yucatán também?

Jake levantou a cabeça. Os olhos azuis mostravam um quê de conflito interior.

— Para Yucatán, também. É uma escavação organizada com acomodações e maiores facilidades. Bem diferente da que tivemos nesses dias.

— E o que eu faria lá, além de proporcionar-lhe alguns confortos?

— Poderíamos trabalhar juntos. Você se interessa, eu sei.

— Não estou qualificada para tanto — Karen protestou.

— Não é necessário grandes qualificações para se trabalhar em uma escavação, só inteligência e interesse. E isso você tem.

Jake deslizava um dedo por seus lábios, provocando um ligeiro arrepio.

— Não exatamente é a carreira que você tinha em mente, eu sei...

— Não é isso — Karen negou.

Investigação arqueológica era um ramo que a tentava. Só que por quanto tempo? Ter de juntar os pedacinhos de sua vida num futuro um pouco mais distante também não a seduzia.

— Então é o quê? Reconheço que é um trabalho que exige bastante, mas...

— Não daria certo — Karen falava com esforço. — Não sou capaz de viver desse jeito, Jake.

— Não pensei que você se incomodasse com as condições de vida.

— Não é sobre condições de vida que estou falando — ela disse. — Falo sobre a falta de compromisso. Sei que é aceitável nos dias de hoje duas pessoas viverem juntas sem se importar com o que a vida possa trazer, mas eu, Karen, preciso mais que isso.

— Amor, por exemplo? — O tom de Jake era seco. — Pode vir a acontecer. Por que não dar-nos uma chance?

— Não posso. — A voz de Karen saía com dificuldade. — Não posso esperar por algo que jamais venha a acontecer.

— Entendo.

Jake ergueu o corpo e sentou-se, procurando pelo robe no chão.

— Então não sobra muito o que falar, não é?

Nada, completamente nada, Karen pensou, desolada. Seus sentimentos por Jake iam muito além do que ele podia vir a sentir. Não importava o quanto aquele homem a queria, isso era tudo. Karen continuou deitada, olhando para o teto, até ouvir a porta se fechar. Havia tomado a decisão acertada, apesar de não se sentir melhor. Há duas semanas tinha sua vida bem planejada. No momento não conseguia pensar no que o dia seguinte lhe traria.

Mike estava sozinho na varanda quando ela finalmente desceu. Teria retornado à sala se ele não tivesse feito um gesto com a mão para que ficasse. Parecia pouco à vontade mas resoluto.

— Agi feito um bárbaro — declarou. — Estava com ciúme e perdi o autocontrole. Tudo o que posso fazer é pedir que me perdoe.

Aquele pedido de desculpa pouco significava para Karen, pois Mike era quase nada para ela. Mas reconhecia que o companheiro se esforçava ao menos.

— Esqueça.

— Esqueço se você também esquecer. — Mike indicou a bandeja de bebidas. — Quer alguma coisa?

— Vodka com suco de laranja — Karen disse, optando por não prolongar o assunto.

Sentando-se em uma das confortáveis cadeiras de junco, ela comentou com naturalidade:

— Aqui é bem mais fresco, se comparado a Petan.

Mike trouxe as bebidas, fixando o olhar nos seios de Karen, que se delineavam sob a fina camisa de seda creme. Os leopardos nunca perdem suas manchas, lembrou a si mesma. Com desculpa ou sem desculpa era o mesmo velho Mike.

— Gostaria de alguma coisa para cobrir os ombros? — ele sugeriu.

— Estou bem, obrigada. É só uma comparação.

Karen deu pequenos goles em sua bebida, enquanto o observava se sentar a seu lado.

— Por que será que os outros demoram tanto? — perguntou, displicente.

— Se é de Jake que você está falando, saiba que ele saiu há quinze minutos — falou com uma ponta de malícia. — Juan não o espera para o jantar.

Havia ido ver Elena, Karen pensou. Pretendia não se casar com aquela mulher, mas mesmo assim a procurava com freqüência. Era tudo sua culpa. Se tivesse concordado com a proposta de Jake, provavelmente ele estaria ali em sua companhia.

Mike não era o único torturado pelo ciúme. Karen estava em pedaços. A noite foi longa e tediosa. Ficou feliz quando se fez tarde o suficiente para se retirar. A ausência de Jake havia sido aceita com normalidade pelos outros. Afinal, Jake era livre para fazer o que bem quisesse.

No dia seguinte, Jake entregaria as peças encontradas às autoridades competentes. Roger queria filmar o ato, o que iria ocupar a todos. Terminado esse episódio, cada um poderia usar o tempo que restava como bem entendesse.

Como em outras noites, Karen acordou durante a madrugada, não conseguindo mais dormir. Com a mente cheia de pensamentos sombrios, saiu à procura de algo para ler. O luar era brilhante e iluminava a sala de estar, onde uma grande estante repleta de livros a aguardava.

Havia um número grande de autores ingleses. Escolheu um romance de Le Carre, leve o bastante para seu estado mental. Ao se virar, viu Jake encostado no gradil da varanda, usando o mesmo roupão da tarde.

— O mesmo problema que eu?

— Se você se refere à falta de sono, sim. Achei que um livro pudesse ajudar.

— Depende do conteúdo. Se for bom, você continuará acordada.

— E o que você propõe então? — Karen se arrependeu assim que acabou de perguntar. O sorriso de Jake já era uma resposta. — Não precisa dizer.

— Não ia. Cafeína não é o mais indicado, mas estava querendo preparar um café para mim. Gostaria de me acompanhar?

O bom senso lhe avisava para dizer boa noite e se retirar, mas o bom senso parecia não estar comandando suas reações. Karen o seguiu até a cozinha, o livro ainda em suas mãos. Uma simples xícara de café não alteraria o curso dos acontecimentos.

Jake preparou o café com habilidade. Karen sentia o delicioso aroma do líquido, enquanto sua mente buscava um tópico sobre o qual falar. Não acreditou quando sua boca pronunciou o que estivera guardado até agora dentro de si.

— Você foi ver Elena, não foi?

— Sim, fui — ele confirmou, colocando açúcar no café.

Já que havia ido tão longe, por que não dizer tudo o que queria?

— E chegou a que conclusão?

— Que conclusão você prefere? — Jake perguntou, debruçando-se sobre o balcão.

— Isso é com você.

— Elena nega veementemente ter dito a Roger que nós iríamos nos casar. Diz que deve ter havido um mal-entendido.

Karen o olhou indecisa por um momento.

— Acha que é possível?

— Não sei. Mas se havia algum, já está desfeito.

— Como assim?

— Exatamente o que você entendeu. Contei a Elena sobre nós. Os olhos de ambos se encontraram numa barreira impenetrável.

— Tudo?

— Não em detalhes, só a essência. — Jake balançava a cabeça devagar. — A única coisa que omiti é o aspecto que diz respeito a meu amor-próprio. Meu ego não me deixaria admitir que amo uma mulher que não sente o mesmo por mim.

Karen ouvira mal, pensou, encarando-o. Jake não podia ter dito o que seus ouvidos haviam escutado.

— Pode repetir? — sua voz soava distante.

— Por que se importa? Você deixou bem claro que não sente nada por mim além de uma grande atração física. Eu sei aceitar minhas derrotas.

Karen ainda não acreditava. Como Jake podia não perceber seus sentimentos? Do mesmo modo que ela não reconhecera os dele, concluiu após uns instantes. Haviam estado tão convencidos do contrário que acabaram se desencontrando. Mesmo agora era difícil dizer, apesar de saber que esse amor estava claro em seus olhos, bastava Jake enxergar. Jake a fitava, mas sem dar mostras de ler naqueles olhos verdes o que Karen tanto desejava.

— Não, droga. Eu não aceito! Você não pode simplesmente dar as costas para o que partilhamos nessas semanas, Karen. Não vou permitir!

Jake tirou a xícara de café das mãos dela e a colocou ao lado da sua sobre o balcão, trazendo Karen para seus braços.

— Não posso cancelar o circuito de palestras agora, mas posso desistir da escavação. Há muitos outros ansiosos para ir até Yucatán. Venha comigo para a América, Karen. Preciso de uma chance para lhe mostrar como nossa vida pode ser.

Toda e qualquer dúvida desapareceu com aquele beijo tão terno e amoroso. Karen retribuía na mesma medida, com o coração transbordante de amor.

— Entende? — Jake falou com suavidade. — Não vai ser assim tão difícil. Tudo o que tem a fazer é pensar positivo.

— Eu te amo.

Karen disse com ternura. — Eu sempre te amei, Jake! Ele a encarava com intensidade.

— Você não me conhece há tanto tempo assim.

Karen riu, feliz, pressionando os lábios de encontro à pele bronzeada.

— Horas, dias, semanas, não faz diferença. Estava perdida no momento em que nos encontramos pela primeira vez!

— Então, estávamos ambos.

Jake a segurava como se para não deixá-la mais escapar.

— Por que não me contou? Por que me deixou pensar que amava sozinho?

— Porque, para mim, eu também não era correspondida. Porque eu achava que você só me queria pelo... pelo...

— Pelo seu corpo?

Jake estava sorrindo, os olhos brilhantes, cheios de uma luz que Karen nunca vira antes.

— Isso também, lógico. E também por esse rosto, por esse espírito corajoso e perseverante. Minha vida melhorou no dia em que Roger me trouxe você — Jake falou por entre pequenos beijos. — A verdadeira razão pela qual eu não queria que você nos acompanhasse era porque tinha medo de que Roger e você se aproximassem demais durante a viagem. Era evidente que Roger tinha um interesse maior do que o profissional. E eu queria você para mim, só para mim.

— Honestamente, Jake, nunca percebi como Roger se sentia e também não encorajei Mike a agir como agiu. Parece que leio mal as pessoas.

— Porque você não tem noção do seu poder de atração. Você fixa esses seus olhos verdes num homem, e ele acredita em qualquer coisa!

Jake ria baixinho.

— Vou ter de imaginar algum tipo de sinal que possa lhe dar para que você saiba quando está ultrapassando a barreira da simples simpatia.

Ambos riam felizes e despreocupados. Os dias e noites de tristeza pareciam pertencer a um passado remoto.

— Esqueça isso que falei. Você aprenderá com o tempo e comigo — Jake falou em meio a um forte abraço. — O que realmente precisamos é de um outro projeto, onde possamos combinar nossas habilidades.

— Minhas habilidades podem se mostrar úteis em Yucatán. Você vai precisar de alguém para as gravações, organização. Como você mesmo disse, seu trabalho me fascina.

— Tem certeza? Não está dizendo por dizer?

— Sim, Jake. Tenho certeza absoluta. Sacrifício não é uma boa base para começarmos nada, quer dizer... supondo que estaremos juntos por algum tempo.

— Pelo resto de nossas vidas, se você concordar — foram as palavras seguras de Jake. — Você acha que seus pais ficariam muito aborrecidos se dispensássemos uma grande cerimônia e nos casássemos na embaixada assim que a papelada estivesse pronta? — Jake hesitou por um momento. — Isso se você quiser se casar comigo. Quero você presa e compromissada, e não por empréstimo.

— Eu também — Karen assegurou. — Terá de ser rápido, se vou aos Estados Unidos com você. Cinco semanas não é tempo suficiente para minha mãe preparar o casamento dos seus sonhos para sua única filha, portanto creio que será melhor apresentarmos o fato consumado.

— Esperava que você dissesse isso. Estou pondo minha marca em você, Karen Lewis — declarou satisfeito. — Quero que cada homem saiba que você é minha. Falaremos com os outros pela manhã.

Seria um choque para todos, Karen pensou. Mas não importava. De agora em diante seriam ela e Jake juntos.

— Vamos para a cama — Jake murmurou, deixando transparecer aquele homem que Karen adorava. — Tenho muitas outras coisas para lhe dizer, meu amor.

Karen também. Palavras ou ações, tudo tinha o mesmo significado.

 



  

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